quinta-feira, 17 de novembro de 2011

HOMEM SEM NOME

Um dia o sujeito tem amigos. São poucos, escolhidos a dedo pelo coração e pelo destino. O sujeito experimenta a temperatura rara de uma grande amizade. Ela parece não ter fim. A promessa de durar pra sempre é bonita. Mas um dia os amigos mudam. Tudo muda. Os olhos ainda se procuram. Só que já não enxergam o que viam antes. Ou então é o coração que já não sente. Ou é o destino que se enganou. Só há velhos rostos desgastados pelo tempo. Gente que deixou de ser. O sujeito faz novos amigos. Mas um dia estes também vão embora. Desaparecem pelas encostas da estrada. O sujeito quer uma âncora, um espelho, um eixo. O sujeito deseja um lugar para ir, chegar, depor as armas; alguém para estar ao lado. Um onde para se deixar ficar. O sujeito quer desistir. Então ele encontra o amor da carne, a sorte grande. A pessoa que é a maior de todas. A cara-metade, o que muitos procuram e poucos encontram. O sujeito regozija. Tesouro achado, ele pensa. O parâmetro que ordena a vida, a coisa que dá sentido a todas as outras coisas. Ele, um dos eleitos. Mas essa pessoa também vai embora. Um dia ele a procura à noite, para dormir protegido, e a cama está vazia. O quarto, a casa, a vida. Plenos de desespero e solidão. O vão eterno, aquilo que é impossível preencher. Todas as palavras ditas, confessas, os gestos dedicados, sinceros, os olhares de devoção, os sentimentos indizíveis. Tudo acabado, levado, perdido. Um dia aquela pessoa fecha os olhos e o sujeito nunca mais enxerga a luz daquele olhar, aquela claridade que era seta tão fundamental. A vida virada em trevas. O para sempre é finalmente uma ideia tola. E a dureza do nunca mais chega como estaca cravada no meio da cara. O sujeito talvez tenha feito filhos. Esperanças que ficam, ele pensa. Rastros de vida. Mas eles também vão embora. Filhos já nascem idos. É mera questão de tempo. Prazo de firmarem suas próprias pernas. Saem pelo mundo à cata de sua própria felicidade ou na fuga de suas próprias dores. Então o sujeito percebe que não há pouso possível. Não há ninguém além dele mesmo. Ninguém. Nada. A realidade intolerável. Toda existência é única e só. Pelo amor que houver, pela vontade mais desesperada, por todas as tentativas mútuas de transcendência e prorrogação. Uma pessoa é sempre um ser sozinho, preso em si mesmo, finito. O sujeito abraça sua sina. Está velho. Não tem ninguém. Agora ele também está indo embora. O tempo passa lento, devorando aos poucos o que resta, mastigando. Não há refúgio. Um vazio cobre tudo, engole a dor. Tudo vai ficando para trás: o realizado e o não feito, os orgulhos e as vergonhas, o que se tenta lembrar e o que se quer esquecer. O fim. Negro, imenso. Quase um conforto. Não existem repostas – de que valeram tantas perguntas? As palavras ácidas, maléficas. De que vale tudo o que foi visto, doído, gozado, aprendido, dito e desdito? Vale nada. A vida é areia e deserto, o sujeito compreende afinal. E chega a sua vez. Ele vai embora também. Termina. Ficam as fotos, amarelecendo. Os filhos cultuam, os netos sabem, os bisnetos esquecem e para os filhos de seus bisnetos o sujeito já é ninguém. Não há mais nome, respeito, lembrança, alusão. O que sobra do sujeito, o registro derradeiro de sua passagem pela vida, é um rosto desconhecido, amarrotado, cravado em papel fotográfico duro, abandonado entre dezenas de outras caras igualmente sem significado, perdidas no tempo. Um dia as fotografias velhas são jogadas fora. Então já não há vestígio. O sujeito some. Vira lixo. Depois vira nada. É apagado da memória do mundo. Como se jamais tivesse existido. Já não faz diferença alguma, não importa a ninguém. Esquecimento rotundo, completo. O fim absoluto. Negro, imenso.


Adriano Silva, 1999.

Nenhum comentário:

Postar um comentário